quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Ciclo do Amor




Por Adriana Kurdejak e Marcel Robledo Queiroz
Obstetrícia – USP

     
           Para alguns o amor não existe. Acham que há apenas um período de paixão, e que após ele deve-se apenas aprender a lidar com a outra pessoa para manter uma convivência saudável. Outros se identificam mais com a idéia do amor indestrutível, poderoso e avassalador. E ainda existem os que acreditam que o amor é algo que podemos controlar, escolher, ou que simplesmente nunca vão se apaixonar. Mas como essas pessoas explicariam um outro tipo de amor, sutil mas eficiente; o amor de uma mãe pode sentir por um filho e vice-versa?
            Hoje, sabemos que existem tanto fatores internos quanto externos ao organismo humano que influenciam na capacidade de amar. De um olhar a uma carícia, os fatores externos estão intrinsecamente atrelados aos internos. De fato, um provoca reações do outro. Mas tudo isso tem início em um momento espetacular e de beleza única: uma relação sexual.
            Neste instante, quando ocorre uma penetração, cerca de dois mililitros de sêmen carregados de aproximadamente 40 milhões de espermatozóides são depositados na vagina de uma mulher. Desses espermatozóides, talvez um deles tenha a chance de encontrar um ovócito secundário e fecundá-lo, dando início a um período mágico na vida dos seres vivos, onde milagres realmente acontecem. A partir desse momento, inúmeros acontecimentos se sucederão, preparando este organismo para que após a multiplicação dessa pequena célula resultante da combinação do espermatozóide e do ovócito secundário e sua organização, em uma forma humana, uma nova criatura que será entregue à vida. Podemos chamar de vida, mas preferimos chamar de MÃE. Essa mulher é uma das protagonistas de uma das formas mais belas daquilo que chamamos de amor. Desde o momento da fecundação o corpo dessa mulher é invadido por cargas exorbitantes de hormônios que irão provocar profundas mudanças em sua vivência. Mudanças essas, que não voltarão atrás, sendo necessárias para a existência do novo ser que foi gerado.
            Mas um desses hormônios aparece em vários episódios da vida de uma pessoa e sempre está relacionada ao amor. A ocitocina tem origem no hipotálamo, e após uma breve passagem pela neurohipófise ela é despejada na corrente sangüínea e inicia seu processo de romantização do organismo. É um hormônio romântico pois prepara o organismo para essas situações. Ela está presente no ato sexual (no homem ela é responsável pelas contrações que irão expulsar o sêmen do organismo, e na mulher pelas contrações que levarão os espermatozóides até a tuba uterina), no processo de gestação (atua no hipocampo aumentando o estabelecimento de novas conexões sinápticas, preparando a mulher para o pós-parto propiciando à ela mais memória de longo prazo, favorecendo o vínculo mãe-filho), no parto (potencializando contrações uterinas) e na amamentação (promovendo a ejeção do leite).
            Todas essas situações nas quais a ocitocina está envolvida acabam liberando endorfinas, neuro-hormônios produzidos na glândula hipófise. Essas proteínas analgésicas são responsáveis não só pelo alívio da dor do parto, mas também pela sensação de prazer experimentada por um casal no momento do orgasmo; além de serem liberadas nos momentos em que uma mãe volta a ter um contato quase simbiótico com seu bebê, durante a amamentação. Essa sensação de bem-estar não é sentida apenas pela mãe, pois o leite materno possui a capacidade de transportar algumas dessas moléculas de prazer para o bebê, que compartilha dessa experiência com sua mãe. Mas possivelmente não será a primeira vez que ele tem esse sentimento. Existem provas que um bebê pode ter acesso às endorfinas produzidas durante um orgasmo de sua mãe através da placenta, sentindo quase tanto prazer quanto sua mãe.
            O prazer gerado por estes neuro-hormônios estimula a mulher, o bebê e o homem a criarem mais situações nas quais eles liberam ocitocina, que reinicia o ciclo do amor, tornando os humanos em uma espécie viciada em amor.
             Mas estes não são os únicos hormônios que transformam uma mulher durante um processo gestacional, grandes quantidades de estrógenos e progesterona, antigos conhecidos das mulheres, são produzidos nos ovários e na placenta. Esses hormônios aumentam o corpo celular dos neurônios na área preóptica medial (mPOA) do hipotálamo, que regula as reações maternais básicas e aumenta a área superficial das projeções neurais no hipocampo, que governa a memória e o aprendizado.
            Um glicocorticóide catabólico, o cortisol, surpreendentemente tem um efeito positivo durante a gestação. O hormônio do estresse, como ele é conhecido, ampliaria sua atenção, vigilância e sensibilidade, fortalecendo o vínculo mãe-bebê após o parto. Há indícios de um possível efeito de longo prazo do cortisol, em que mulheres grávidas aos 40 anos de idade ou mais teriam chance quatro vezes maior de chegar aos 100 anos do que aquelas que engravidaram mais cedo. Nós acrescentaríamos que a gravidez e a experiência maternal subseqüente podem ter melhorado o cérebro dessas mulheres durante um período crucial, justo quando o declínio nos hormônios reprodutivos induzido pela menopausa estaria começando; ou seja, os benefícios cognitivos da maternidade podem ajudar a compensar a perda dos hormônios protetores da memória, levando a melhor saúde neural e longevidade ampliada.
            Um bebê já é inserido no mundo conhecendo o amor, e esse direito não lhe pode ser negado! A mãe ou qualquer outra pessoa que traga essa criança à vida não lhe pode negar o direito de amar e ser amado. Ele já está viciado nesse sentimento, essa já é a sua forma de viver! Alimento para uma sociedade melhor, um mundo mais romântico e humano. Seja por meio dos hormônios protagonistas ou pelos coadjuvantes, o ciclo do amor torna-se indispensável para a manutenção da vida. Mas mesmo se não fosse, continuaríamos ativando-o apenas pelo “simples” sentimento de prazer!
           
            Bibliografia
1.      Odent, M. O Parto e as origens da Violência.1994.
2.      Kinsley CH, Labert KG. Mãe. Scientific America. Nº 4, Fevereiro de 2006.

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