segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Iphan estuda classificar parteiras de Pernambuco como patrimônio nacional

O ofício das parteiras pode se tornar patrimônio imaterial brasileiro no Livro de Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O inventário – requisito para o título – foi realizado por um grupo de instituições pernambucanas onde o trabalho das raras parteiras resiste ao tempo. Devido à oralidade da técnica de partejar, o conhecimento do ofício deve ser registrado em forma de livro para que a prática não seja extinta com o passar dos anos.
A ideia de incluir as parteiras no grupo partiu do Instituto Nômades, Grupo Curumim, Associação das Parteiras Tradicionais de Caruaru e Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes. As quatro instituições catalogaram o trabalho de 220 parteiras no Estado em seis municípios. O material já está em análise no Iphan.
Segundo o Instituto Nômades, a solicitação tenta reverter a fragilidade do ofício. O inventário cataloga as técnicas das parteiras para “superar dificuldades de transmissão e desvalorização diante da tecnologia e conhecimento biomédico”.
A doula (pessoa que ajuda parturientes no parto e pós-parto) Daniella Gayoso afirma que as parteiras têm dificuldade de repassar o ofício “porque a maioria já tem idade avançada e dificuldades de repassar o conhecimento, e poucas se interessam em aprender as técnicas”.
“Sabemos da importância dessas mulheres que ajudam as grávidas a dar à luz nos lugares mais longínquos e não podemos deixar que o ofício se perca com o passar dos anos”, disse Daniella, que é adepta do parto natural com ajuda de parteira e teve três dos quatro filhos nascidos em casa.
A extinção do ofício das parteiras está ligada a fatores como o controle de natalidade, a abrangência do SUS (Sistema Único de Saúde) além do desinteresse de outras mulheres por aprender as técnicas. “Em todas as cidades visitadas as parteiras relataram que o trabalho de ‘pegar menino’ está diminuindo, como também o número de parteiras, que na sua maioria já está com idade avançada. Não há valorização em massa do ofício por não ser remunerado”, afirmou a doula.
Daniella disse que ainda existem parteiras que fazem exceção à regra, mas que a resistência ao tempo se dá por explicações distintas. Segundo ela, nas regiões pobres o difícil acesso e a falta de alternativa mantêm a existência de partos domiciliares.
“Existe uma parteira que reside num bairro da periferia de Jaboatão dos Guararapes altamente violento, e a dificuldade de locomoção de grávidas em trabalho de parto é complicada. O tráfico de drogas impede a entrada de pessoas que não são da comunidade, e taxistas não arriscam fazer corridas para a área. Mas também temos exemplo de uma parcela da sociedade recifense que está mais esclarecida sobre a importância do parto normal, e as mulheres estão aderido aos partos domiciliares.”
O trabalho de pesquisa também abrangeu comunidades indígenas de Pernambuco para saber se os partos das índias eram feitos por parteiras e quais as técnicas usadas. A realidade da extinção das parteiras também foi comprovada nas etnias xucuru, pankararu e kapinawá, que não têm novas índias que realizam o ofício.
“Não encontramos índias com menos de 50 anos que eram parteiras. Na tribo xucuru partos realizados com auxílio de parteira são raridade. Já a pankararu e a kapinawá é mantida a tradição dos bebês nascerem lá na comunidade”, afirmou.

Exemplo na ONU

Com índices positivos na atenção à saúde da mulher registrados no Brasil, o trabalho das parteiras serviu de exemplo para oito países que participaram da reunião da ONU (Organizações das Nações Unidas), ocorrida nos últimos dias 18 e 19, em Nova York (Estados Unidos).
Ministros da Saúde, chefes das agências da ONU, além de representantes da sociedade civil, como organizações de mulheres e profissionais de saúde, discutiram as formas de reduzir a mortalidade materna e infantil, que fazem parte dos desafios para os países alcançarem as Metas de Desenvolvimento do Milênio (ODM).
O Grupo Curumim representou o Brasil e mostrou a experiência de dez anos de ações de capacitação de parteiras nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste brasileiras.
“O trabalho com as parteiras tradicionais é importante para que as ações de saúde reprodutiva e especialmente obstétrica propostas pelos governos tenham adesão da comunidade, já que as parteiras representam uma importante liderança. O trabalho que desenvolvemos é que elas sejam um elo entre os serviços públicos de saúde e a comunidade”, afirmou Paula Viana, do Grupo Curumim.
Em dez anos de existência, o programa Parteira já capacitou mais de 2.000 parteiras tradicionais, indígenas, quilombolas e Agentes Comunitários de Saúde (ACS) dos Estados do Acre, Alagoas, Amapá, Amazônia, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraná, Paraíba, Pernambuco, Roraima e Tocantins.

Mais de 5.000 partos

A pernambucana Maria dos Prazeres de Souza, 73 anos, é o exemplo de dedicação, amor e dom pela profissão que adotou desde a adolescência. Aos 52 anos de profissão, em 2008 a parteira atingiu nada menos do que 5.000 partos feitos por ela em residências sem a ocorrência de nenhuma morte.
Com mais de 50 anos de trabalho de partejar, ela conta que o segredo para o sucesso em 100% dos partos realizados é saber o limite que a mãe e bebê atingem para não correr riscos e complicações no parto. “Não sou eu quem ajuda as mães a parir, é Deus. Sou apenas instrumento dele, temos de ser pacientes e esperar, dentro do limite, é claro. Além do mais, faço tudo com muito amor, pois é uma vida que se inicia.”
Com graduação em enfermagem e obstetrícia, realizada na Faculdade de Medicina de Recife, em 1964, Maria dos Prazeres é uma das poucas parteiras que ainda mantêm viva a profissão. Ela conta que na adolescência ajudava o nascimento de animais, mas foi com 17 anos que ela realizou o primeiro parto “em gente”.
Da mesma forma que as parteiras tradicionais estão em extinção, os partos realizados em casa também estão. Maria dos Prazeres destaca que o perfil das mulheres adeptas ao parto natural mudou, e agora “na era da modernidade apenas as mais avançadas culturalmente têm coragem de parir com ajuda de uma parteira”.
“As mulheres com menos instrução evitam o parto normal e se deixam enganar com os médicos, que vão logo marcando o parto cesariana. Atualmente, vejo que as mulheres de classe média e alta querem manter a tradição humana de ter filhos de forma natural. O parto normal e a amamentação fazem parte da natureza humana e trazem inúmeros benefícios.”
Maria dos Prazeres disse que não cobra para realização de partos, mas “aceita uma contribuição dentro das posses que a família pode oferecer”. “Jamais cobrei pelo meu serviço, pois faço tudo com amor. Se me derem R$ 100 eu aceito. Se me derem R$ 200 também é benvindo, mas se for um muito obrigado, um beijo e um abraço, também.”

Fonte: UOL Notícias

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